Liderança em tempos de incerteza: o que mudou e o que se espera de quem lidera
- Redação GoHuman

- 1 de jul.
- 6 min de leitura
Da adoção acelerada da IA à erosão da confiança, quatro movimentos globais estão redesenhando o que se espera de quem lidera. Antes de falar em como liderar na incerteza, é preciso entender o que mudou
Você já ouviu falar na Curva S de Aprendizado?

Visivelmente, ela mostra que o processo de aprendizagem se inicia devagar porque falta ao aprendiz uma base para absorver informação com eficiência; com o tempo, essa base se forma e o aprendizado acelera; e, por fim, conforme o aprendiz se aproxima do domínio, os ganhos ficam cada vez menores e o progresso desacelera até quase estagnar. O formato em S captura essa trajetória: lento, rápido, lento de novo.
Por muito tempo, esse padrão foi observado nos mais diferentes mercados e contextos. Porém, em um mundo que se transforma rapidamente, com diferentes crises e movimentações simultâneas, essa curva está sendo cada vez mais comprimida, com menos tempo para a fase lenta.
Ou seja, atualmente, para se manterem relevantes, as organizações e os profissionais precisam passar pelas fases de aprendizado mais rapidamente, e em diferentes áreas ao mesmo tempo.
Este é o primeiro artigo dessa série sobre Liderança em tempos de incerteza. Nele, mapeamos as pressões globais que estão redesenhando o papel de quem lidera. No segundo artigo, que você lê aqui, Alessandra Cavalcante e Rachel Goldgrob, cofundadoras da GoHuman, falam sobre o que fazer diante dessas pressões.
O contexto de policrises que molda o papel da liderança

Segundo o WEF Global Risks Report 2026, não estamos vivendo uma crise isolada, mas sim uma incerteza composta e sem precedentes, onde riscos geopolíticos, climáticos e tecnológicos se reforçam mutuamente.
O estudo identificou cinco macrotendências convergentes que impactam os modelos de trabalho:
Expansão digital
Aumento do custo de vida
Mudanças climáticas
Fragmentação geoeconômica
Avanço da IA
Nesse cenário, mais do que gerenciar uma mudança de cada vez, os líderes precisam aprender como navegar por diferentes “universos” simultaneamente, adquirindo habilidades rapidamente e se adaptando constantemente.
73% dos especialistas globais caracterizam o cenário atual como “turbulento” ou “tempestuoso”. WEF Global Risks Report 2026
As principais pressões globais que estão moldando o papel das lideranças nas organizações
Atentas ao que acontece no mundo e cientes de que o primeiro passo para saber como lidar com uma novidade é entendê-la profundamente, mergulhamos nas principais pressões que estão moldando o papel das lideranças nas organizações. A ideia é que, juntos, possamos pensar em como esses movimentos se traduzem no dia a dia das organizações.
#1 O avanço da IA e a falta de preparo para sua adoção
Uma das transformações mais relevantes e que impacta diretamente o trabalho do líder é o avanço das tecnologias com inteligência artificial.
Inclusive, “resultados adversos de tecnologias de IA” foi o item que teve o maior salto no ranking de riscos globais do Fórum Econômico Mundial: em dez anos, saiu da 30a posição para a 5a.
Porém, para além do progresso tecnológico em si, a questão mais relevante aqui é a lacuna entre a adoção da tecnologia e o preparo dos profissionais.
Segundo o relatório Global Human Capital Trends 2026, da Deloitte, 67% dos trabalhadores dizem que a IA já mudou suas funções, mas apenas 36% das organizações redesenharam processos para integrar essa tecnologia de forma eficaz. Além disso, apenas 22% das empresas investem em gestão de mudança cultural para a inteligência artificial.
O Fórum Econômico Mundial aponta que três grandes riscos se destacam nesse sentido:
Deslocamento massivo de empregos;
Concentração de poder em poucas empresas/países;
E perda de agência humana, com dependência crescente de sistemas para decisões críticas. Inclusive, a Deloitte alerta que 60% dos líderes já dependem de recomendações algorítmicas para tomar decisões.

É justamente nesse ponto que Alessandra Cavalcante, cofundadora da GoHuman, acende um alerta que aprofundaremos no segundo artigo: “use a IA como apoio, mas não terceirize seu julgamento. A leitura de contexto e as decisões críticas continuam sendo suas”.
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#2 A crise de confiança dentro das organizações
A erosão da confiança é um fenômeno global. O levantamento 2026 Trust Barometer, da Edelman, revela que incerteza econômica, medos persistentes e pessimismo estão fazendo as pessoas cada vez mais desconfiadas e fechadas.
De acordo com o relatório, 7 em cada 10 brasileiros não estão dispostos ou hesitam em confiar em alguém que seja diferente deles. A chamada insularidade (rejeição de ideias e valores alheios aos seus) está diretamente relacionada a outros problemas globais, tais como a polarização social e a propagação de informações falsas.
O WEF Global Risks 2026 coloca a desinformação como risco global no 2 e a polarização social como no 4.
E a IA amplifica essas questões.
A Deloitte aponta que 78% dos executivos afirmam que verificar a autenticidade de informações é um desafio crítico para os próximos dois anos.
Segundo a consultoria, sintomas como desconfiança, desengajamento e resistência passiva são resultado da “dívida cultural da IA”, que é o que acontece quando as empresas priorizam a adoção rápida de novas tecnologias sem levar em conta a adaptação cultural e a preparação das pessoas.
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#3 Um mundo cada vez mais tecnológico demanda habilidades humanas
O relatório Future of Jobs Report 2025 prevê que 59% da força de trabalho global precisará de requalificação até 2030. Apesar do avanço tecnológico crescente, as habilidades mais demandadas não são técnicas, mas sim humanas: pensamento analítico, resiliência, flexibilidade, agilidade, liderança e influência social.
A lacuna de habilidades é citada por 63% dos empregadores como a principal barreira à transformação.
Ao mesmo tempo, o Four Futures 2030, que analisa possíveis cenários para a evolução da adoção da IA, aposta que entre todas as incertezas sobre o futuro do trabalho, uma coisa é consistente: as organizações que priorizarem estratégias de capital humano hoje serão as mais preparadas para qualquer futuro que se concretize, o que o relatório chama de “no-regret moves”.
Ou seja, requalificação deixou de ser programa de RH e passou a ser estratégia de sobrevivência do negócio. Nesse cenário, o próprio líder é cobrado a desenvolver continuamente suas habilidades, especialmente as que a IA não substitui – caso, por exemplo, do julgamento ético, da empatia, do pensamento sistêmico e da capacidade de navegar a complexidade.
#4 Modelos de liderança ultrapassados
Segundo o estudo Global Human Capital Trends 2026, apenas 18% das organizações contam com líderes preparados para orquestrar os novos ecossistemas de trabalho, que combinam pessoas, inteligência artificial, gig workers e parceiros externos.
Mais de 50% dos executivos admitem que as funções corporativas tradicionais precisam de reinvenção substancial.
E ainda, outra questão que demanda adaptação no modelo de gestão é o envelhecimento da força de trabalho aliado à entrada das novas gerações no mercado que acaba gerando conflitos entre gerações.
Um estudo da London School of Economics revela que quanto maior a diferença de idade entre o colaborador e o gestor, menor a produtividade: funcionários com gestores mais de 12 anos mais velhos têm 1,5 vez mais chance de relatar baixa produtividade.
A análise concluiu que ter gestores que sabem liderar pessoas de diferentes gerações é o fator mais importante para produtividade e satisfação do time. No entanto, 40% dos profissionais afirmam que sua empresa não possui essas práticas inclusivas em relação à diversidade geracional.
Como liderar em tempos de incerteza
Todas as pesquisas que analisamos revelam um contexto volátil, de mudanças constantes e cada vez mais rápidas. As transformações sociais, econômicas e tecnológicas nunca foram tão aceleradas, e as pessoas (profissionais e líderes) nunca estiveram tão pressionadas a se adaptar sem ter clareza sobre o futuro.
Nessa nova realidade, a demanda por adaptação é estrutural e crescente. E ao contrário do que o senso comum poderia sugerir, o mais importante nesse contexto não é dominar a tecnologia mais recente. O grande diferencial surge quando as empresas conseguem aliar as habilidades intrinsecamente humanas da sua equipe às novas ferramentas.

Foi o que ouvimos de Rachel Goldgrob, cofundadora da GoHuman, quando levamos esse diagnóstico a ela. “Em tempos de incerteza, a questão é menos sobre saber exatamente o que fazer, e mais sobre entender como ir navegando”, disse. Navegar, porém, não é improvisar no escuro, exige um repertório próprio.
E é nesse sentido que o papel do líder faz toda a diferença.
Em um contexto de transformações constantes, os líderes precisam abandonar sistemas de comando e controle, que pressupõem previsibilidade em um mundo que não a oferece mais, e construir um novo repertório, baseado em confiança, diálogo e adaptabilidade.
Cada uma dessas pressões cobra uma resposta concreta de quem lidera. Quais são elas – e por onde começar – é o que exploramos na segunda parte desta série, em conversa com Alessandra e Rachel, que você lê aqui.
A GoHuman promove debates como esse em organizações preocupadas em construir culturas humanizadas e ambientes psicologicamente seguros. Quer saber como podemos ajudar seu time? Entre em contato com a gente!




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