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Como liderar em tempos de incerteza

  • Foto do escritor: Redação GoHuman
    Redação GoHuman
  • 1 de jul.
  • 10 min de leitura

Não existe fórmula mágica para liderar na incerteza. Existe repertório, confiança, diálogo e coragem para ter as conversas difíceis. Saiba por onde começar


No primeiro artigo desta série, mapeamos os movimentos globais que estão pressionando as lideranças. Falamos sobre a adoção acelerada da IA sem preparo das pessoas, a erosão global da confiança, a demanda crescente por habilidades humanas e como os modelos de liderança precisam se adaptar à nova força de trabalho. Vimos também que a Curva S de aprendizado está cada vez mais comprimida, fazendo com que seja preciso aprender mais rápido, em várias frentes ao mesmo tempo.


A pergunta que surge a partir dessa análise é: o que o líder pode fazer na prática para liderar melhor? 


Quem responde a seguir são as cofundadoras da GoHuman e especialistas em desenvolvimento de lideranças Alessandra Cavalcante e Rachel Goldgrob.


Antes de seguirmos, porém, um aviso: você não vai encontrar uma fórmula mágica aqui. Aliás, essa é justamente a primeira lição.


Rachel Goldgrob

“A gente não tem uma fórmula mágica. Cada situação tem contextos diversos. Em tempos de incerteza, a questão é menos sobre saber exatamente o que fazer, e mais sobre entender como ir navegando”, resume Rachel.


Mas navegar na incerteza não significa improvisar no escuro. Como Alessandra e Rachel deixam claro, é preciso abandonar a ilusão do controle, reconstruir confiança, reabrir o diálogo e resgatar o que há de essencialmente humano na liderança. 


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A armadilha do comando e controle


Encerramos o primeiro artigo falando sobre a necessidade de abandonar os sistemas de comando e controle. Porém, o que Alessandra e Rachel observam nas organizações é que há um retrocesso neste sentido.


Alessandra Cavalvante

Segundo Alessandra, a pandemia e a migração para o modelo híbrido ou home-office abriu uma porta de mudança, mas acabou revelando a mentalidade de controle de muitos líderes.


“[Com a distância física,] as pessoas perderam aquele controle, ou aquela falsa sensação de controle, aquela ideia de ‘eu estou vendo o que você está fazendo, então sei que você está trabalhando’”, explica. 


Na análise dela, o resultado foi a multiplicação de ferramentas de vigilância no trabalho remoto e, mais tarde, com a volta ao presencial, o reforço desse vício. “Voltamos para o presencial com a ideia de controlar e com ainda mais desconfiança”, avalia.


O problema é que, em um cenário de policrise, em que riscos geopolíticos, climáticos e tecnológicos se reforçam mutuamente, como mostrou o Fórum Econômico Mundial, o controle simplesmente não dá conta. “Como você vai controlar uma coisa que é incontrolável? Não temos certeza de nada, tudo muda o tempo inteiro”, reflete Rachel.  


Ela reforça que, em tempos de incerteza, o papel do líder não é ter todas as respostas, mas sim sustentar as condições para que o time encontre as respostas coletivamente. “Quando você cria um ambiente colaborativo e as pessoas podem falar, você tem acesso a diferentes perspectivas e consegue solucionar os problemas em conjunto”, destaca.


Mas Alessandra faz questão de não pintar o líder controlador apenas como vilão. “Excluindo os sociopatas, são líderes que estão pressionados e meio que reféns desse sistema”, pondera. “Tem uma coisa assim: eu quero confiar, eu quero ter um ambiente bom, mas eu tenho que ter o mínimo de controle aqui. É essa angústia – e não a má intenção – que costuma estar por trás do retrocesso”, aponta.


Confiança é mais barata que controle


Se o controle não funciona e a resposta é apostar em modelos de trabalho mais colaborativos para lidar com as transformações constantes, a construção da confiança se torna fundamental.


Mas as especialistas fazem uma ressalva importante: confiar não é confiar ingenuamente. 


Rachel reconhece que a desconfiança dos líderes tem origem em experiências reais. “A gente escuta muito ‘eu confiei e olha no que deu’. Tem o home office que virou home off – a pessoa simplesmente se desliga”, conta. O que ouvimos frequentemente é: “O que acontece é que a gente acaba pagando pelo erro de poucos: os poucos que não são confiáveis geram uma situação desagradável para todos”, acrescenta.


Para construir essa confiança, as especialistas explicam que é necessário ter uma contrapartida. Citando o cientista político Gert Tinggaard Svendsen, que diz que  controle é bom, mas a confiança é mais barata, Rachel comenta que “o controle exige criar muita burocracia, e as pessoas ficam desgastadas. A grande questão é saber como construir essa confiança para poder ter um controle menor”.


Segundo as cofundadoras da GoHuman, o caminho para desenvolver essa confiança passa por definir acordos explícitos. “Se eu sei o que eu tenho que fazer, e você sabe o que você tem que fazer, nós temos um combinado e vamos funcionar dessa maneira. Aí você pode confiar”, diz Rachel.


Alessandra complementa com uma referência que a GoHuman usa com frequência nos trabalhos com times, a pirâmide de Lencioni: 


Como liderar em tempos de incerteza – pirâmide de lencioni

“A grande maioria dos times trava na primeira camada, que é a confiança, ou na segunda, que é o medo do conflito – que também tem a ver com confiança. Enquanto você não consegue ter as conversas difíceis, a sua confiança não está consolidada”, ressalta.


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O perigo da ausência de diálogo


A desinformação é o segundo maior risco global atualmente, segundo o WEF Global Risks 2026, e a polarização social, o quarto. Dentro das empresas, isso acaba se refletindo no silenciamento das pessoas ou na geração de conflitos. “Saímos do silêncio para a polarização. Não há mais diálogo. Se eu sinto que conversar significa polarizar, eu prefiro não conversar, eu prefiro silenciar”, observa Alessandra.


A polarização tem ainda o medo como agravante. “Os líderes estão morrendo de medo. Medo de falar alguma coisa, medo de chamar a atenção das pessoas, medo de dar feedback. A pergunta inicial passou a ser: como é que eu me protejo?”, reflete. 


De acordo com as especialistas, esse ciclo de medo e desconfiança alimenta distorções e desinformação dentro das organizações. Uma das consequências disso é a banalização dos canais de denúncia. 


“Se você não educa as pessoas sobre como utilizar o canal, fazendo as distinções sobre o que é assédio e o que não é, você estimula o mau uso: qualquer questão de relacionamento vira denúncia. E isso pode afetar a credibilidade de ferramentas que existem exatamente para criar ambientes mais éticos e respeitosos”, alerta Alessandra. 


Ela vai além e enxerga aí, muitas vezes, uma fuga de responsabilidade. “Em vez de eu perceber qual a minha parcela no que aconteceu, o que eu contribuí e o que posso fazer diferente, eu fujo dessa responsabilidade e uso o canal de denúncia”, aponta.


Esse cenário ganha uma camada nova com a NR-1, a norma que passa a exigir a gestão de riscos psicossociais nas empresas brasileiras.


Para as cofundadoras da GoHuman, a regulação é positiva e necessária, mas traz um risco de leitura. “As pessoas vão se sentir mais encorajadas a denunciar abusos, mas é importante trazer maior clareza sobre a distinção entre o que é um risco psicossocial real (abuso, assédio, sobrecarga etc), de cobranças legítimas de um contrato de trabalho”, pondera Rachel. 


Outro ponto de atenção é que a norma não vire mais um checklist de fachada. “Não basta remodelar o espaço de trabalho com espaços de convivência e pintar uma parede com a frase 'Pessoas importam', como medida preventiva para criar um ambiente saudável. O que, na prática, cria esse ambiente é a construção de uma cultura, não ações isoladas para 'cumprir tabela', destaca.


Para resolver essa questão, Rachel aponta que é importante reconstruir a capacidade de dialogar, desenvolvendo, antes de tudo, a escuta. “Não adianta estimular as pessoas a falarem se ninguém está preparado para escutar. Primeiro você prepara as pessoas para escutar, para ter essa abertura de fato. Depois, estimula as pessoas a falarem. Se for ao contrário, a situação pode até piorar e produzir mais silêncio”, reflete. 


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A importância das lideranças corajosas e humanas


Como liderar em tempos de incerteza

Lembra do paradoxo que encontramos no relatório Future of Jobs Report


Em um mundo cada vez mais tecnológico, as habilidades mais demandadas são humanas: pensamento analítico, flexibilidade, liderança e influência social.


Alessandra e Rachel contam que o que elas veem na prática confirma essa relação. “Quem vai fazer a diferença são os líderes essencialmente humanos, que conseguem demonstrar suas vulnerabilidades (o que não é o mesmo que exposição excessiva), ser autênticos e estabelecer conexões verdadeiras”, afirma Alessandra. São exatamente as capacidades que nenhuma IA substitui.


No entanto, ela faz um alerta contra a humanização de fachada, marcada por rituais de “somos uma família”, apelidos corporativos fofos e clima artificialmente positivo. “As pessoas percebem quando é forçado demais, quando é exagerado demais”, diz.  


Para ilustrar, Alessandra recorre ao oposto – um gesto simples que vale mais que qualquer ritual. Ela conta o caso de um líder que faz questão de saber o nome do cônjuge e dos filhos de cada pessoa do time. “Não é querer saber da vida do outro nos pormenores. É mostrar que você reconhece que aquela pessoa tem uma vida fora dali, que ela é um ser humano integral. Isso gera respeito”, comenta.


Ainda nessa linha, Rachel enfatiza que outra característica fundamental do líder preparado para lidar com as incertezas é a coragem. “É preciso ser alguém que tem coragem de estar ali, chova ou faça sol, levando flores ou pedras, errando e acertando, mas se responsabilizando, promovendo segurança psicológica e equilibrando autonomia e alinhamento. Não é trivial, observa.


“Ser esse líder que promove segurança psicológica não significa ser bonzinho, ser legal, deixar o caos acontecer. Trata-se do líder que escuta de verdade e que, ainda que tome uma decisão diferente, comunica, faz a troca, para que as pessoas sintam que de fato fazem parte”, explica. E acrescenta que “o equilíbrio entre autonomia e alinhamento parece um bom caminho: a liderança define o 'quê' (o problema a ser resolvido e a visão) e o time decide o 'como' (a melhor forma para atingir o objetivo). Autonomia em excesso pode gerar desalinhamento e caos, mas controlar demais também pode sufocar e infantilizar.”


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Autoconhecimento, adaptabilidade e a disposição de desaprender


No primeiro artigo desta série, vimos que 59% da força de trabalho global precisará de requalificação até 2030, e que a Curva S de aprendizado está cada vez mais comprimida. Para o líder, isso se traduz em uma exigência dupla: desenvolver-se continuamente e olhar para si.


É por isso que nos programas de liderança da GoHuman, o autoconhecimento é ponto de partida: “Que líder eu sou? Quais são as minhas fortalezas e onde eu preciso prestar atenção? Não existe perfeição e cada um tem o seu lado sombra. A questão é como eu trabalho esse lado sombra para interagir melhor com as pessoas e, consequentemente, alcançar o melhor resultado”, propõe Alessandra.


Nesse sentido, Rachel traz à tona o conceito de QA, o “quociente de adaptabilidade”. O QA mede o quanto uma pessoa é capaz de se adaptar a mudanças. A ideia surge como complemento aos dois quocientes mais conhecidos: o QI (inteligência cognitiva, raciocínio) e o QE (inteligência emocional, autoconsciência e relações).


Aqui vale uma distinção que costuma passar batida. Adaptabilidade não é o mesmo que resiliência. Ser resiliente é aguentar o impacto e voltar ao estado anterior; ser adaptável é deixar-se transformar pela mudança – sair dela diferente, não apenas inteiro. Em um mundo que não volta ao “normal” anterior, resistir não basta, é preciso reconfigurar.


Rachel explica que, na prática, isso significa entender o contexto, traduzi-lo para a sua realidade e aceitar que será preciso aprender e desaprender o tempo inteiro. “Não é sobre não ter opinião – você pode ter opinião. Ter opinião é uma coisa; estar aberto a ver as coisas de uma maneira diferente é outra”, distingue. O obstáculo, alerta, é a certeza: “quem acha que já sabe tudo” é justamente quem trava o próprio aprendizado.


E ela amarra esse ponto de volta à confiança: aprender e desaprender rápido – errar rápido para corrigir rápido – só acontece num ambiente onde isso é seguro. “Para isso você também tem que ter confiança. Senão, a cada coisa que dá errado instala-se o caos e o foco fica na busca de culpados ao invés da busca de soluções a partir de um aprendizado”, observa. Não por acaso, a confiança volta ao centro: é a base da pirâmide e a condição de tudo o que veio antes.


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7 atitudes para liderar na incerteza


Para fechar, reunimos as principais recomendações de Rachel e Alessandra, respondendo aos desafios que mapeamos no primeiro artigo:


1) Troque vigilância por combinados 


Em vez de monitorar, estabeleça acordos claros: o que cada um precisa entregar, como o time vai funcionar. Combinados explícitos criam a contrapartida que torna a confiança possível e são especialmente úteis para alinhar expectativas entre gerações diferentes.


2) Prepare a escuta antes de estimular a fala 


Não adianta criar canais e pesquisas de satisfação se ninguém está pronto para ouvir. Primeiro, desenvolva a abertura de quem escuta (a começar por você); só depois incentive as pessoas a falarem. 


3) Cuide da sua reação quando alguém falar 


Em um contexto em que 7 em cada 10 brasileiros já hesitam confiar em outras pessoas, uma resposta dura a uma fala sincera funciona como um balde de água fria: a pessoa não volta a falar e o problema passa a chegar até você como denúncia, atestado ou pedido de demissão.


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4) Eduque o uso dos canais formais 


Ajude o time a distinguir o que é assédio do que é conflito de relacionamento e estimule a conversa direta antes da denúncia. Sem essa educação, o canal vira válvula de escape e perde credibilidade.


5) Invista nas habilidades que a IA não substitui


Vulnerabilidade na dose certa, autenticidade, empatia e julgamento ético são as competências mais demandadas do mercado, e nenhuma ferramenta entrega isso por você. Só evite o teatro: as pessoas percebem quando é exagerado.


6) Pratique o autoconhecimento e não terceirize seu julgamento 


Pergunte-se com frequência: que líder eu sou? Que legado quero deixar? Use a IA como apoio, mas não deixe que recomendações algorítmicas substituam sua leitura de contexto e suas decisões críticas.


7) Aprenda e desaprenda rápido

 

Em um mundo em constante transformação, é importante ter flexibilidade e estar sempre aberto ao aprendizado. Leia o contexto, ajuste a rota e lembre que nem todos navegam o caos como você.


Quer desenvolver lideranças preparadas para esse contexto na sua organização? Entre em contato com a gente para conhecer os programas de liderança humanizada e segurança psicológica da GoHuman.

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