top of page

Terceirização emocional, dívida cognitiva e os perigos da dependência da inteligência artificial   

  • Foto do escritor: Redação GoHuman
    Redação GoHuman
  • 14 de mai.
  • 11 min de leitura

Entenda os impactos do uso desenfreado da inteligência artificial e saiba como adotar essa tecnologia de maneira ética e responsável, ampliando suas capacidades criativas, cognitivas e emocionais


Você tem medo da inteligência artificial? 


A verdade é que a ansiedade diante de tecnologias disruptivas não é algo exclusivo da nossa era. A revolução industrial, o surgimento da máquina fotográfica, da televisão, do telefone, da internet, tudo isso gerou muita preocupação, angústia e receio em relação aos seus possíveis impactos na vida humana.


Nada mais natural, já que em contextos de transformação profunda em sistemas com os quais já estamos acostumados é comum se sentir sobrecarregado e intimidado. 


Porém, a transição gerada pelo avanço da inteligência artificial (IA) é algo inédito por conta da velocidade em que ela está acontecendo. 


Você sabia, por exemplo, que quando foi lançado, o ChatGPT atingiu 1 milhão de usuários em apenas cinco dias e 100 milhões em dois meses, tornando-se um dos aplicativos de crescimento mais rápido da história?


Em termos de comparação, o Instagram levou dois anos e meio para chegar a um milhão de usuários; o TikTok, nove meses; e o Facebook, quatro anos e meio. 


Mas para além da velocidade da adoção, a IA se diferencia de outras disrupções tecnológicas por sua característica interativa e evolutiva. É diferente de um equipamento passivo que apenas responde a comandos, e também não é uma tecnologia que existe para facilitar a comunicação com outros humanos. 


Com a IA, interagimos com a máquina e a máquina interage conosco. E mais: a IA com a qual você conversa hoje não será a mesma amanhã. A cada hora que um agente de inteligência artificial passa interagindo com humanos e absorvendo dados, mais ele se transforma, aprendendo novos padrões. 


“A coisa mais importante que se deve saber sobre a IA é que ela não é uma ferramenta como todas as invenções humanas anteriores. Ela é um agente. Um agente no sentido de que pode tomar decisões independentemente de nós. Pode inventar novas ideias. Pode aprender e mudar por conta própria”, destaca o historiador e filósofo Yuval Noah Harari.


A IA não tem uma mente consciente, mas sua capacidade de resposta (cada vez mais proficiente) dá a impressão de que, sim, estamos falando com uma pessoa. Isso gera a chamada Intimidade Artificial – sobre a qual já falamos neste artigo


Esse cenário traz alguns riscos em relação à forma como nos relacionamos e também à maneira pela qual nos desenvolvemos emocionalmente e cognitivamente. Por isso mesmo, precisamos falar sobre as ameaças do uso desenfreado e não-crítico da IA, além, claro, de pensar em caminhos para utilizar essa tecnologia de forma responsável e humana.


Como a IA impacta a forma como nos relacionamos e nos desenvolvemos


Como a IA impacta a forma como nos relacionamos

A ficção científica explora muito o impacto da inteligência artificial na vida humana. 


  • Em Blade Runner, Philip K. Dick levanta uma questão importante: seres artificiais podem sentir emoções se forem implantados com memórias humanas? 

  • 2001: Uma Odisseia no espaço propõe que a IA pode ganhar um nível elevado de autonomia, inclusive indo contra a vontade dos humanos.

  • O filme Ela mostra como seria um relacionamento amoroso entre um humano e um agente pessoal de IA.

  • E o livro Klara e o Sol, de Kazua Ishiguro, revela como um robô que existe para ser companheiro de crianças – um “amigo artificial” – enxerga as pessoas ao seu redor, sem entender nuances humanas. 


Existe algo que permeia todas essas obras e que também é relevante para nossa discussão em relação ao impacto da IA na sociedade e no trabalho, que é o limite das relações entre humanos e máquinas. Até onde é possível integrá-las em nossas vidas e quais são os espaços em que elas não devem entrar? 


Nesse sentido, vale destacar dois riscos importantes quanto ao uso excessivo da IA: dependência emocional e cognitiva.


Terceirização emocional


Durante o SXSW 2026, Amy Webb, CEO da Future Today Strategy Group e professora da NYU, alertou para os perigos em relação a um movimento cada vez mais crescente que ela chama de “terceirização emocional", que é quando as pessoas terceirizam a regulação emocional para máquinas. 


Segundo ela, até 50% dos americanos já usaram ChatGPT, Claude ou Gemini como suporte emocional. Além disso, Modelos de Linguagem de Grande Escala (Large Language Models ou LLMs) são hoje a maior fonte de apoio à saúde mental nos EUA.


“A substituição vira dependência. A dependência vira controle. Primeiro, a carga emocional sai dos humanos e vai para os sistemas. O trabalho emocional não desaparece. Ele apenas migra para aplicativos, para chatbots. E isso não é bem-estar; isso é terceirizar uma habilidade humana essencial – a regulação e a gestão das próprias emoções –, uma habilidade que todos precisamos desenvolver para conseguir conviver uns com os outros”, aponta.


Dívida cognitiva


Amy ainda questiona: “estamos criando uma dependência aprendida em escala civilizacional?”.


Essa é uma provocação relevante, especialmente porque os perigos não estão isolados à dependência emocional. Nossa capacidade cognitiva também pode sofrer com o uso desenfreado de IA. 


Um estudo feito no MIT acompanhou 54 participantes ao longo de quatro meses para medir o que acontece com o cérebro de quem usa IA para escrever. Os participantes foram divididos em três grupos: um usou ChatGPT, outro usou buscador tradicional e o terceiro escreveu sem nenhuma ferramenta.


Estas foram as descobertas:


  • A conectividade neural (a intensidade das redes cerebrais ativas durante a escrita) decaiu sistematicamente conforme o apoio externo aumentou. Quem escreveu sem ferramenta apresentou as redes mais fortes e distribuídas. Quem usou IA apresentou as mais fracas. E quanto mais as sessões avançavam, mais essa diferença se aprofundava.


  • A memória também foi afetada. Participantes do grupo que usou IA falharam significativamente ao tentar citar trechos das próprias redações. Ou seja, o cérebro simplesmente não havia consolidado aquele conteúdo como memória própria. 


  • O senso de autoria também se fragmentou: enquanto 16 dos 18 participantes do grupo sem ferramenta declararam sentir plena autoria sobre o que escreveram, no grupo que usou IA as respostas variaram entre autoria parcial e nenhuma autoria. 


  • E ainda, os textos gerados com IA eram mais homogêneos, mais previsíveis e facilmente identificados pelos professores humanos pela falta de variação e pelo vocabulário padronizado. 


Os pesquisadores chamaram esse processo de “dívida cognitiva”, um custo que se acumula silenciosamente a cada vez que delegamos o trabalho de pensar à máquina.


Esse fenômeno também é observado no cotidiano das organizações. 


Luiz Faray

Luiz Faray, advisor de Transformação Digital e Inovação no Google, acompanha de perto como esse processo se instala. “Na realidade, não somos nós que estamos dominando a ferramenta, é ela que está nos dominando, porque o que ela diz é tomado como verdade absoluta”, avalia. 


Para ilustrar essa percepção, Faray conta que faz mentoria com uma profissional que usava IA para terapia. “Quando eu expliquei para ela o que é uma LLM – que ela está, essencialmente, prevendo palavras – ela ficou horrorizada”, relata. E vai além: “fiz uma pesquisa recente com alunos que geram conhecimento via deep research e nem leem o que a IA produz, pedem um resumo do resumo. Estamos formando generalistas superficiais, sem curiosidade genuína, sem aprofundamento real”, indica.


Possíveis cenários para o futuro guiado pela inteligência artificial

 

A IA deixou de existir apenas no mundo da ficção, é uma realidade e está cada vez mais presente em diferentes áreas. A questão não é SE vamos adotá-la, mas sim, COMO vamos integrar essa tecnologia em nossos trabalho e em nossas vidas. 


O impacto no mercado de trabalho já é percebido por profissionais e líderes globalmente. O relatório do Fórum Econômico Mundial (WEF) Four Futures for Jobs in the New Economy: AI and Talent in 2030, que investiga como a combinação entre o ritmo de avanço da IA e o nível de preparo da força de trabalho vai moldar o mercado de trabalho nos próximos anos, revelou que:


  • 54% dos líderes acreditam que a IA vai substituir empregos existentes.

  • 45% esperam que a IA aumente as margens de lucro das empresas.

  • O uso de IA em pelo menos uma função empresarial saltou de 55% em 2022 para 88% atualmente.

  • A demanda por habilidades de letramento em IA cresceu 70% entre 2024 e 2025.


Segundo o levantamento, que foi produzido com base em conversas com mais de 10.000 executivos, existem quatro cenários possíveis:


Cenário 1) Progresso acelerado A IA avança exponencialmente e a força de trabalho está preparada


Avanços tecnológicos reestruturam indústrias inteiras em tempo recorde. A produtividade dispara, os empregos desaparecem em grande volume, mas novos surgem e escalam com a mesma velocidade. E ainda, uma função até então inexistente ganha protagonismo: o “orquestrador de agentes”, um profissional – humano – que gerencia portfólios inteiros de sistemas de IA. 


O problema nesse cenário é que as estruturas regulatórias, de proteção social e de governança não conseguem acompanhar o ritmo da mudança. Com isso, o progresso é real, mas com alto custo humano.


Cenário 2) Era do deslocamento A IA avança exponencialmente, mas a força de trabalho não está preparada


A tecnologia avança, mas as pessoas ficam para trás. Empresas correm para incorporar automatizações como resposta à escassez de talentos e deslocam trabalhadores mais rápido do que os sistemas de educação e requalificação conseguem responder. Em setores de alta exposição, até 90% das tarefas são absorvidas pela tecnologia. 


Nesse contexto, as economias crescem no papel, mas fraturam socialmente: o desemprego dispara, a confiança dos consumidores despenca e os governos enfrentam instabilidade crescente. É o cenário em que o progresso tecnológico e o retrocesso humano caminham lado a lado.


Cenário 3) Economia copiloto

A IA avança gradualmente e a força de trabalho está preparada


A IA é integrada de forma pragmática e responsável no mercado de trabalho. Com isso, a maioria das indústrias passa por transformação gradual, com equipes humano-IA remodelando cadeias de valor de forma sustentável. A qualidade do trabalho melhora onde as pessoas lideram a IA e deteriora onde a IA substitui a criatividade e a autonomia humana. 


Aqui, cresce a demanda por habilidades unicamente humanas, como resolução de problemas, competências sociais e capacidade de gestão. É o futuro mais equilibrado – e também o que exige mais investimento consciente em pessoas para que possa se concretizar.


Esse cenário tem respaldo acadêmico no conceito de hibridização do trabalho. 

Neste artigo, os pesquisadores Paula Chimenti e André Luís da Fonseca, do COPPEAD/UFRJ, avaliam que a IA deixou de ser apenas um suporte externo e passou a integrar os próprios processos cognitivos. Segundo eles, pensar, analisar e decidir estão se tornando atividades distribuídas entre humanos e sistemas algorítmicos. 


Em um contexto em que todo mundo tem acesso à IA, o diferencial competitivo está no repertório humano que conduz essa interação. Alta integração com a tecnologia combinada com baixo julgamento crítico tende a gerar resultados padronizados. É quando criatividade, autoria e pensamento crítico entram em cena que a IA passa a amplificar, de fato, as capacidades humanas.


Cenário 4) Progresso estagnado

A IA avança gradualmente e a força de trabalho não está preparada


Nesse futuro, a tecnologia avança, mas sem grandes saltos. A força de trabalho não se adaptou e os ganhos se concentram nos poucos que detêm expertise em IA, enquanto os demais perdem competitividade. 


Empregos de entrada e tarefas administrativas são os primeiros a desaparecer. A frustração se acumula, a desigualdade se aprofunda e a confiança nas instituições segue em queda. É o cenário da promessa não cumprida, em que a IA existe, mas não serve a todos.


O que separa um cenário do outro


De acordo com o estudo, o que separa um cenário do outro não é a tecnologia, é o investimento em pessoas. Ou seja, o que realmente faz diferença nesse contexto é a capacidade humana de acompanhar, absorver e conduzir essa transformação com consciência, ética e responsabilidade. 


E é exatamente aí que entra o papel das lideranças, da cultura organizacional e da segurança psicológica não como temas paralelos ao debate da IA, mas como condição para que essa tecnologia nos leve a um futuro melhor. 



Como caminhar para a economia copiloto


O avanço das “mentes” artificiais reforça a humanidade como uma habilidade crucial e até mesmo um diferencial estratégico. 


Essa é a base da economia copiloto, em que a IA é integrada de maneira ética e responsável nos processos de trabalho e desenvolvimento.


Para chegar a esse cenário, é preciso de fato buscar construir uma cultura organizacional centrada na humanidade.


Neste sentido, é fundamental entender estes pontos:


O papel da segurança psicológica

Em ambientes psicologicamente inseguros, as pessoas se sentirão mais confortáveis em conversar com as máquinas do que com seus pares humanos. Como resultado, essa dependência demasiada em ferramentas IA – e a falta de interação entre os profissionais – gera impactos negativos na criatividade e no pensamento crítico. 


Faray, que trabalha com transformação digital no Google, observa esse mecanismo nas organizações com as quais atua. “As pessoas só adotam uma tecnologia quando enxergam benefício para si, não para a organização”, afirma. E ele vai além, apontando uma contradição que muitas empresas preferem não nomear: “as empresas estão induzindo os colaboradores a adotarem essas tarefas com apoio humano, e depois os descartam. O discurso bonito de que ‘você vai assumir um papel mais estratégico’ não se concretiza na prática”, declara. 


Para ele, ambientes psicologicamente seguros fazem diferença direta nesse processo. “Essa mudança acontece de forma muito mais suave em ambientes organizacionais mais seguros”, reconhece.


Falta de reflexão e julgamento

Mesmo no cenário mais positivo, os pesquisadores do WEF alertam que a dependência sistêmica excessiva em processos habilitados por IA pode reduzir o julgamento humano, aumentando o risco de vieses e lacunas de governança. Aqui, relembramos o conceito de dívida cognitiva da pesquisa do MIT: quanto mais dependemos das máquinas para aprender e tomar decisões, menos capacidade de aprender/pensar criticamente teremos. 


O potencial do diferencial humano

Quando a IA é integrada de forma saudável, gera-se benefícios que potencializam capacidades intrinsecamente humanas. Por exemplo: quando funções repetitivas são executadas pela inteligência artificial, o profissional ganha tempo para investir em tarefas mais criativas e estratégicas, onde a empatia e o poder de associação da mente humana ultrapassam as habilidades da IA. 


Para Faray, esse argumento tem uma dimensão estratégica clara: “se todo mundo vai usar as mesmas ferramentas de IA, o que vai diferenciar uma empresa da outra? Aquela que conseguir usar com mais criatividade, mais empatia e mais ética, que são fatores essencialmente humanos. E a gente não está ocupando esse espaço”, reflete. “Eu não consigo imaginar uma Disney implementando IA e mantendo o mesmo encantamento que sempre teve, porque esse encantamento vem de uma relação humana”, acrescenta.


A humanidade apoiada pela inteligência artificial


A humanidade apoiada pela inteligência artificial

Penso, logo, existo.” 


Sob essa premissa de René Descartes, será que um agente de inteligência artificial pode ser considerado um ser? Ele efetivamente “existe”? Essa foi uma provocação feita por Harari durante o Fórum Econômico Mundial de 2026.


O historiador explica que o pensamento não envolve apenas um sequenciamento de palavras; há toda uma linguagem emocional, não verbal, envolvida na construção de um pensamento. Essa é a grande diferença entre IA e humanos. 


“Enquanto as IAs se tornam melhores do que nós com palavras, não temos nenhuma evidência de que as IAs consigam sentir qualquer coisa. Se continuarmos a nos definir pela nossa capacidade de pensar em palavras, nossa identidade vai entrar em colapso. Se nos definirmos pela nossa capacidade de incorporar sabedoria que não pode ser expressa em palavras, ainda teremos um lugar nesse mundo”, reflete. 


E essa é uma questão central que deve estar nos debates sobre a integração dessa tecnologia nos processos de trabalho e desenvolvimento. 


É fundamental entender que, sim, a IA traz benefícios para a produtividade. Contudo, apesar de ter uma performance mais rápida no processamento de dados e palavras, ela tem limitações significativas, especialmente quando se trata de criatividade. Memórias afetivas, empatia, nuances emocionais é o que gera ideias surpreendentes, que conectam e impactam. E essas são habilidades intrinsecamente humanas. 


Além disso, esses são diferenciais importantes também para tomada de decisão e observações críticas. É claro que a análise de dados fornecida por tecnologias IA tem um valor imenso, mas os números sozinhos não mostram o cenário completo. É preciso um olhar humano para entender sutilezas e detalhes que faltam nas planilhas. 


Então, depender excessivamente de IA – seja como apoio emocional, para desenvolvimento ou para tomada de decisões – é deixar fora da equação fatores humanos que não apenas enriquecem sua visão, como garantem que atributos inerentes à humanidade sejam elevados.  


Nosso papel na GoHuman é levar esses debates para dentro das empresas, garantindo que a IA seja integrada e utilizada de maneira consciente e responsável, elevando as capacidades humanas – e não as substituindo. 

Inclusive, acreditamos tanto no potencial da IA para fortalecer processos de autoconhecimento e desenvolvimento, que estamos construindo, em parceria com Luiz Faray,  um agente de inteligência artificial para apoiar profissionais e líderes em jornadas de autodesenvolvimento: a HUMA.


A ideia não é que ela faça o trabalho e as reflexões no lugar das pessoas. Mas sim, que ajude a sustentar processos de desenvolvimento de pessoas e times, a partir de uma ferramenta construída em uma base ética, metodologia sólida e curadoria especializada.


Quer saber como apoiamos as empresas para garantir que a IA seja adotada de forma ética nas organizações, preparando os profissionais para aproveitar o potencial dessa ferramenta de maneira consciente? Entre em contato com a gente!

Comentários


bottom of page